O que mudou na sua universidade depois que você se formou, nos dias de hoje?

12/03/2016 01:16:00 PM



O ônibus estava lotado como sempre. Milhares de pessoas pegavam o Brt, por ser atualmente o transporte público mais rápido, além dos já conhecidos, ou por falta de opção mesmo. Eu estava sentada num banco amarelo, desses que são preferenciais - nunca entendi porque existe assento preferencial. Não acho que essa lei educar nem traz consciência para as pessoas. Pelo contrário. Não deveria existir lugar marcado. É obrigação de todos ao menos ter consciência de que a piore idades. Se trata de bom senso - e numa das paradas das estações, um senhor de cabelo branco e marcas de uma longa vida parou em minha frente. Ao vê-lo, imediatamente ofereci para ele se sentar no meu lugar.
- Posso?
- Pode claro!
- Pode ficar. Já estou há muito tempo sentado hoje, desde 7h da manhã
- Não, que isso. Sente-se!
- Quero não, pode ficar
Disse ele com um sorriso no rosto. Independente da idade, homens cavalheiros sempre me conquistaram (principalmente hoje que esse tipo está entrando em extinção). Quando olhei para ele conseguir imaginar como deveria ser a 40 anos atrás. Automaticamente me lembrei do último livro que li "Uma longa jornada" e claro, da história de Ira Levinson.
- Você tá vindo da UFRJ?
- Sim!
- Eu estudei lá também, na década de 1970. Fiz arquitetura
- Nossa que legal!
- Na época era no prédio da reitoria. Lá também é o prédio da escola de belas-artes e onde funcionava a diretoria
Eu respondi dizendo que tudo ainda era a mesma coisa. Após algumas estações o lugar ao meu lado desocupou. Eu fui para um canto e ele se sentou ao meu lado. Simpático, me contou como era universidade na época que ele estudava lá, em meados de 1934. Disse que era obrigada a fazer educação física, mesmo não sendo da sua área. Que tinham shows e que eles contratavam cantores, mas que cada passo era controlado e vigiado pelo governo que era militar. Era amarga época da ditadura, E mesmo com o regresso do país graças as proibições, censura e violência, ainda haviam pessoas que lutavam por uma vida melhor. Mesmo que o melhor para muitos (assim como para ele) significasse um diploma. Isso chamou me atenção e me fez de frete. Fiquei bem surpresa com o seus relatos sobre a vida universitária da época, e também maravilhada com outras coisas. Sabe os cantores de show que falei aqui antes? Era nada mais nada menos que Chico Buarque, Caetano Veloso, Beth Carvalho, Gilberto Gil, entre outros grandes nomes da nossa música. Ele contou como era tudo minuciosamente vigiado pelos ditadores, e me via à mente os estudantes da UNE, os jornalistas perseguidos, os artistas censurados, e a triste época de uma sociedade sem voz. Há 39 anos tudo era completamente diferente, até mesmo a única coisa que tínhamos em comum: nossa querida universidade. Ele me mostrou a carteira de estudante que ainda guarda na carteira como lembrança e disse que tinha que renovar a cada ano. Eu em contrapartida disse que a minha deveria ser renovada de três em três anos. Disse também em qual período estava, qual era meu curso em qual prédio estudava. Curiosamente ele achou que eu fazia engenharia (será que tenho cara de inteligente?). Também perguntou se tinha bandejão (restaurante universitário) no meu prédio e disse que em sua época o melhor de todos era do centro de tecnologia que é o prédio dos estudantes de engenharia, e como fazia para chegar lá. Conversávamos durante toda a viagem. Ao chegar próximo de sua estação o simpático senhor se despediu e me deu um rápido e valioso conselho
- Forme-se!
Foram suas últimas palavras à mim. E durante o restinho da viagem de volta para casa pensar em tudo que ele me disse. E especialmente em seu conselho importante. Dizem que depois dos 40 não envelhecemos e sim adquirimos experiência. Quantas coisas ele já não viveu? Quais atitude já teve que tomar? Quais consequências teve que arcar depois de suas escolhas? Quando fazemos faculdade mudamos o longo da trajetória. Não há lugar em que mais nos questionamos como esse. O que será da gente depois de nos formarmos? Será que estou fazendo a coisa certa? Escolher o curso que dar maior salário ou ou trabalhar com o que se ama? Sou apenas um grão de areia perdida no meio da imensidão que existe entre as outras. Acho que isso é coisa de jovem sabe? Desde o ensino médio eu tinha grandes dúvidas sobre meu futuro. E com relógio correndo tão depressa nós temos a sensação de que não fazemos tudo que queríamos. "hoje o tempo vou amor, escorre pelas mãos, mesmo sem se sentir…" já dizia Lulu Santos. E é desse exemplo (e do senhor do Brt) que eu tiro o que devemos fazer. Esquecer os erros do passado, se preocupar menos com futuro e viver o presente. Afinal não há tempo que volte amor, vamos viver tudo que há para viver. Vamos nos permitir!

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